Teatro



Teologia Lírica Dos Ventos : Uma Fábula Pagã
Texto, dramaturgia e trilha sonora original (ao vivo)
Marcabru Aiara

Sinopse : 
Um ensaio poético sobre os ventos  e seus simbolismos. Uma linguagem lírica, lúdica, e alegórica, em um monólogo narrado por um velho marujo cigano, cego dos olhos, mas não do coração.
 (Em algum lugar, na beira do mar)
“A maior dor do vento é não ser colorido”, disse o velho Quintana.
Vou contar a estória de como me tornei amigo do vento, porque nunca pude vê-lo, mas sempre lhe nutri sincera e profunda amizade. Dos ventos dos quatro cantos do mundo, cigano do mar que sou. Já corri muita água de barco, jangada, canoa, quando estive nas matas de fronte pro mar, encontrei um bambuzal, morada dos sacis, que me disseram :
- Ouça o vento soprando nos bambus, que carreiam muitos mistérios e segredos. O vento soprando dentro do bambu, é feito a alma soprando no corpo. Do leste onde nasce o sol, até seu poente, em todas as línguas dos homens e dos anjos, dos bichos que falam mesmo fora das fábulas, no êxtase budista de uma pedra, os bambuzais zelam por esta doutrina : Vento e espírito são o mesmo. E o que é o respiro em tudo o que vive, senão um vento que um dia se cala ?
(solo flauta de bambu)
De lá procurei o manguezal, esse berçário das águas, concílio das Yaras, e diante dele chamei pela senhora da lama com sua canção, porque os ventos também agitam o fundo das águas, e revolvem a lama, e trazem mensagens para o espelho d’água, feito um oráculo... E o que são as canções, senão o vento da inspiração soprando nos corações dos cantadores...

(Canção, voz a capela, da tradição da Umbanda)
Nanã Buruquê
Quando andava nos montes
 Cada passo que dava
 Ela abria uma fonte
 Os anjos do céu,
 Bebia água nela,
 Que água tão doce Nanã,
 Senhora tão bela
Os anjos do céu
Bebia água nela
Que água tão doce, Nanã
Senhora tão bela



E lhe rezei, como  convém :
(poema de Marcabru Aiara)

Nossa Senhora da lama
Me  faz do seu barro de novo, me faz ser mais um do seu povo, que eu possa ser regenerado,
 Nossa senhora do mangue, do pântano úmido e escuro, eu também quero ser puro, como qualquer flor de lótus, mas isso eu não sei se posso, com tanta chaga no corpo, então qualquer um depois de morto, vai ter que pedir passagem;
Dos manguezais encontrei o caminho da beirada d’água, e perguntei as conchas como conhecer o vento, e elas que tem o som do mar dentro de cada uma e de todas, me  responderam : 
- Deves ouvir o vento soprando nos metais no fundo do mar, em suas embarcações naufragadas e suas carcaças de metal carcomidas, mas não dançam ou se alegram a alma dos afogados,  embora o vento também sopre em seus metais, que cantam, alegram e encantam os velhos marujos.

(solo de gaita instrumental)

Perguntei também pelo caminho de volta, pelo caminho de volta pro  mar, porque quando bota os pés na terra, marujo já quer voltar pro mar, e aprendi uma canção da velha marujada, da ciganaria do mar, porque a volta é longa como são longas as estórias.

(canção, voz a capela. Letra e música de Marcabru  Aiara)

Eu vou pela beira da estrada
Eu vou pela beira do rio
Quando chega na beirada
Eu vôo pelo precipício
Quando chega na beirada
Eu vôo pelo precipício

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